Segunda, 01 Outubro 2018 14:07

Sabe o que é um biodigestor?

Portal Biodigestor

Conheça esta tecnologia social que é uma energia limpa, alternativa para o botijão de gás e que pode reduzir acidentes com queimaduras pelo uso indevido de álcool no preparo de alimentos

Para as famílias em situação de vulnerabilidade social, o preço do botijão de gás GLP tem impactado no orçamento. Segundo a Agência Nacional de Petróleo, de janeiro de 2017 a julho de 2018, houve um aumento de quase 75% no botijão. Os preços variam de R$ 60 a R$ 150 dependendo da região do país. Para driblar o alto custo, muitas famílias têm substituído o botijão de gás pelo álcool de cozinha, mas isto tem gerado outro problema: explosões e queimaduras nas pessoas.

Segundo o médico Marcus Vinícius Crepaldi, que atende pacientes vítimas de queimaduras há mais de quinzes anos, é comum pessoas com dificuldade de comprar o gás, usarem o álcool para cozimento de alimentos. O médico defende que o álcool não deva ser usado no ambiente doméstico porque funciona como uma bomba que pode detonar a qualquer momento. “A mãe que vai esquentar uma mamadeira rápida para o filho ou o pai que vai acender a churrasqueira são as principais vítimas de queimadura devido a explosões em decorrência do uso de álcool”, afirma.

Diante de um cenário de alto custo econômico e risco à saúde, uma alternativa é o biodigestor, uma tecnologia social que produz biogás a partir de esterco animal e que pode ser usado para cozinhar alimentos. O custo é menor do que um botijão de gás e evita o risco de explosões que ocasionam queimaduras nas pessoas.

No sertão brasileiro, a entidade Diaconia implementou o biodigestor sertanejo, que é utilizado em fogão para a preparação de alimentos. A iniciativa foi certificada pela Fundação Banco do Brasil como tecnologia social em 2015. O impacto da TS se deve à simplicidade de manutenção e manejo, baixo custo de instalação, substituição do GLP pelo biogás, redução de emissão dos gases metano e carbônico na atmosfera e produção de adubo orgânico e biofertilizante.

Como fazer

O biodigestor consiste em três partes: numa caixa se coloca o esterco misturado à água. A fermentação do esterco (biomassa) ocorre num tanque circular, por meio da digestão anaeróbica de bactérias, resultando na produção do biogás. Da caixa de descarga sai o biofertilizante e o adubo orgânico ricos em nutrientes, resultado final da fermentação do esterco animal. A capacidade de produção é de 26 kg de biogás ao mês, o que equivale ao consumo médio mensal de uma família de cinco pessoas em fogões domésticos. A chama que sai do fogão deve ter cor azul e não ter cheiro. O custo de implantação desse tipo de biodigestor é de R$ 2.800 com mão-de-obra. Para fazer o abastecimento diário são utilizados 10 quilos de esterco misturados a 10 litros de água. Os dejetos podem ser de dois bovinos adultos, dez suínos, 20 caprinos, ou cem aves.     

Biodigestor Sertanejo

Diferentes usos

Segundo o Engenheiro Agrônomo Luiz Cláudio Matos, da Diaconia, o biodigestor tem inúmeras funções. “Algumas famílias usam para aquecer água para o banho, substituindo o chuveiro, acoplado a sistema de motorização para bombeamento de água. E já vi, de forma experimental, para uso em lamparina para iluminação de ambientes domésticos”, afirma.

Ao longo de oito anos, a Diaconia implantou mais de 400 biodigestores nos estados de Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás, Rio Grande do Norte, Goiás e Minas Gerais De fácil construção, um pedreiro capacitado faz a parte de alvenaria em três dias e um técnico instala a caixa e faz a ligação até o fogão em um dia.

O biodigestor é uma estratégia que possui relação com o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 7 ao assegurar o acesso à energia a um preço acessível e sem a emissão de gases na atmosfera, o que mitiga os efeitos das mudanças climáticas, além de evitar acidentes com o uso indevido de álcool para o cozimento de alimentos.

“Acreditamos que essa tecnologia tem todas as condições para se tornar uma política pública. Isto porque ela é sustentável, traz benefícios econômicos importantes e contribui para a qualidade de vida das famílias, bem como se constitui em ganhos relevantes na dimensão do meio ambiente”, finaliza Luiz Cláudio.

A Agenda 2030

Definidos pela ONU durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também conhecidos como Objetivos Globais, fazem parte da Agenda 2030, que se baseia nos progressos e lições aprendidas com os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, entre 2000 e 2015. Esta agenda é fruto do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo que pretende criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o meio ambiente e combater as alterações climáticas.

No total são 17 ODS e 169 metas que estimulam ações até o ano de 2030 em áreas de importância crucial para a humanidade e para o planeta.

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Esta matéria faz parte da série “Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil”, produzido pela Fundação BB com conteúdos sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que fazem parte da Agenda da Organização das Nações Unidas para o ano de 2030.

 

Publicado em Série ODS

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Iniciativa virou tecnologia social e garantiu construção de ponte, centro comunitário, cozinha industrial e poço de água potável para a coletividade, entre outras melhorias

O açaí é um alimento nutritivo, gastronomicamente versátil e determinante para a sustentabilidade de comunidades extrativistas que dele vivem. Em Santo Ezequiel Moreno, pequena comunidade de 150 pessoas localizada no município de Portel, na Ilha do Marajó (278 km de Belém), é também a base de uma tecnologia social que vem garantindo autonomia e prosperidade financeira: o Fundo Solidário Açaí.

A iniciativa consiste em captar o valor fixo de R$ 2 por lata vendida do produto in natura para um fundo coletivo. Em oito anos de existência, o empreendimento arrecadou R$ 290 mil. Com o dinheiro, a comunidade garantiu água potável, construiu a ponte de 600 metros que liga as moradias às lavouras de mandioca, um centro comunitário e uma cozinha industrial, entre outras melhorias que ampliam as possibilidades de trabalho e renda.

Certificada pela Fundação Banco do Brasil em 2017 (link: http://tecnologiasocial.fbb.org.br/tecnologiasocial/banco-de-tecnologias-sociais/pesquisar-tecnologias/detalhar-tecnologia-700.htm), a tecnologia é resultado de um processo de mobilização coletiva iniciada em 2004. Naquele ano, quase todas as famílias perderam um parente, amigo ou vizinho por causa do surto de raiva causado por morcegos. A doença atingiu três comunidades e vitimou 15 pessoas em apenas duas semanas.

Laudo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apontou que a migração dos morcegos foi consequência da degradação florestal resultante da derrubada do açaizal por exploradores de palmito. A partir da tragédia, a população começou a pensar em como reverter a situação. A conclusão foi de que manter o açaizal de pé seria mais lucrativo e ambientalmente adequado.

Teofro Lacerda, idealizador do fundo e primeiro presidente da Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Rio Acuti-Pereira (ATAA), lembra que naquela época o açaí despontava como grande promessa de negócio e começava a ser exportado para outros países. Mas não foi fácil convencer os demais moradores da comunidade sobre as potencialidades da floresta de pé. Após muita conversa, convencimento e mobilização, as famílias começaram a apostar nessa ideia. Mas com a produtividade do açaizeiro nativo ainda baixa e a ausência do poder público as demandas só cresciam, pois a vila precisava de infraestrutura básica que nem a prefeitura nem o governo estadual supriam.

A ideia da criação do fundo surgiu entre 2009 e 2010, quando o coletivo vendeu 20 mil latas de açaí. Cada produtor começou contribuindo com R$ 1 por lata vendida. Logo, a comunidade tinha recursos para construir a ponte. A obra custou R$ 35 mil e foi totalmente custeada pelo fundo. "Os engenheiros foram os próprios comunitários e a mão de obra foi de toda a comunidade", conta Lacerda. Desde então, os moradores têm muito mais facilidade para entrar ou sair da vila. “Essa ponte é a nossa ‘avenida’. Antes a locomoção era muito difícil. A gente tinha que embarcar na canoa e caminhar sobre rolos de madeira soltos para poder estudar, trabalhar e qualquer que fosse a atividade fora.”, lembra o técnico agrícola.

O fundo também possibilitou a construção de um centro comunitário. No local acontecem reuniões, ações da Pastoral da Criança, cursos e festas. Outra conquista foi a construção de um poço artesiano que hoje abastece de água potável uma área de mais de 800 metros quadrados. “Tudo isso mudou a nossa realidade da água pro vinho”, explica Lacerda.

A melhoria mais recente é a cozinha industrial comunitária. No local, cerca de 20 mulheres produzem alimentos que são vendidos para as escolas da região (por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE), gerando renda para o coletivo. De acordo com a ATAA, 5% da receita obtida com a atividade vão para o fundo. “A ideia é diversificar as fontes de recursos para que o fundo seja cada vez mais sustentável”, ressalta Lacerda.

O técnico agrícola Nilson Corrêa da Silva, atual presidente da entidade, afirma que as perspectivas da comunidade mudaram completamente após a criação da associação e do Fundo Açaí Solidário. “As crianças de hoje têm mais possibilidades de educação e mais qualidade de vida do que as da geração anterior. Nossa meta é formar contadores e outros profissionais para gerir o fundo daqui a algum tempo”, explica.

Outro objetivo é ampliar a produção de açaí e começar a exportar para fora do país. “Agora podemos sonhar mais alto e com a certeza de que uma hora ou outra o sonho vai se tornar real”, afirma Silva. Por ano, são comercializadas 200 toneladas de açaí. Os compradores são restaurantes da região, escolas e alguns atravessadores.

Combate à pobreza

O Fundo Solidário Açaí é uma tecnologia social relacionada com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 1 da Organização das Nações Unidas (ONU): acabar com a pobreza em todas as suas formas.

Definidos pela ONU durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, também conhecidos como Objetivos Globais, fazem parte da Agenda 2030, que se baseia nos progressos e lições aprendidas com os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, entre 2000 e 2015. Esta agenda é fruto do trabalho conjunto de governos e cidadãos de todo o mundo que pretende criar um novo modelo global para acabar com a pobreza, promover a prosperidade e o bem-estar de todos, proteger o meio ambiente e combater as alterações climáticas.

No total são 17 ODS e 169 metas que estimulam ações até o ano de 2030 em áreas de importância crucial para a humanidade e para o planeta. 

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Esta matéria faz parte da série “Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil”, produzido pela Fundação BB com conteúdos sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que fazem parte da Agenda da Organização das Nações Unidas para o ano de 2030.

 

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