Meio Ambiente e Sustentabilidade

Vozes das florestas ecoam no Espaço Chico Mendes e Fundação BB na COP30

Terça-feira, 11 de Novembro de 2025 - 09:59

Vozes das florestas ecoam no Espaço Chico Mendes e Fundação BB na COP30

O “Espaço Chico Mendes e Fundação BB na COP30” abriu suas portas neste sábado (08), celebrando o legado de resistência em defesa do meio ambiente e das comunidades tradicionais deixado por Francisco Alves Mendes Filho — o seringueiro, sindicalista e ativista ambiental conhecido como Chico Mendes. O espaço recebeu as vozes vibrantes da floresta e das águas com o Encontro das Juventudes da Floresta e a inauguração do Armazém da Sociobiodiversidade. Localizado no Campus de Pesquisa do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), no bairro da Terra Firme, o espaço estará aberto ao público até o dia 15/11.

“Queremos mostrar o quanto há de potencialidades nos territórios junto a indígenas, quilombolas, ribeirinhos, assentados e extrativistas. Meu pai já pensava assim na década de 80, no quanto é possível desenvolver esses territórios sem, no entanto, ameaçar, degradar, violentar, desmatar. Então, o Comitê Chico Mendes é muito inspirado, também, na carta aos jovens do futuro. Fazemos um trabalho muito forte com os jovens desses territórios também. Então, ver aqui essa quantidade de jovens participando desse momento é uma mensagem da força, do trabalho, da luta e da resistência”, disse Ângela Mendes, filha de Chico Mendes e presidente do Comitê Chico Mendes.

O Encontro das Juventudes da Floresta teve início às 9h, no auditório do Campus de Pesquisa do Museu, e reuniu mais de 200 jovens de diversos biomas brasileiros.

“Além de sediarmos a maior conferência climática do mundo, nós estamos reunidos com juventudes de diversos territórios, de todos os biomas do Brasil. E isso reafirma a presença dessa juventude que não só quer, mas deve estar nos espaços de negociação e deliberativos de poder, para que a gente possa, a partir de uma visão de futuro e revolucionária, como disse o nosso líder Chico Mendes, construir uma sociedade longe dos padrões de desenvolvimento predatório, que a gente já viu que não funciona”, disse Matheus Azevedo, coordenador de juventude do Conselho Nacional dos Seringueiros e Populações Extrativistas do Pará (CNS/PA).

Armazém da Sociobiodiversidade: economia viva e coletiva

Um dos momentos mais esperados do segundo dia de programação do Espaço Chico Mendes foi a abertura do Armazém da Sociobiodiversidade, que reúne, ao todo, 60 empreendedores e expositores de comunidades tradicionais da Amazônia e de outros biomas. No local, é possível encontrar alimentos, artesanatos e produtos da economia solidária.

“O armazém representa, justamente, o legado de Chico Mendes. Ele é fruto da criação das reservas extrativistas, dessa produção que existe de povos e comunidades tradicionais e ele dá resposta a tudo que essas pessoas sempre sonharam, que é ter renda a partir da floresta em pé. Então, o armazém fecha com chave de ouro tudo que a gente vê, desde o início lá do Espaço Chico Mendes, e mostra que valeu a pena toda essa luta que, até hoje, o movimento extrativista e povos de comunidades tradicionais têm feito. Isso é uma pequena amostra de que a agricultura familiar, os povos e comunidades tradicionais e as unidades de conservação têm qualidade nos seus produtos. São produtos certificados, orgânicos, para exportação. Então, a COP deveria visar a expansão de modelos de negócios como esse”, complementou Tatiana Balzon, organizadora do Armazém e presidente do Instituto Diversa.

Fundação BB como parceira da economia solidária

“A economia solidária é uma alternativa de modelo de desenvolvimento econômico diferente da economia convencional e do capitalismo. Você tem uma empresa que é de uma pessoa, que contrata trabalhadores, você vende com a mão de obra e, pronto, recebe seu salário. E o lucro fica com quem tem a empresa. A economia solidária é um compartilhamento de gestão de um empreendimento. O empreendimento é de todo mundo que trabalha ali. É uma cooperação. Então, todo mundo trabalha, recebe a medida da sua cooperação e tudo é distribuído entre todos. O que entra é distribuído entre todas as pessoas que estão trabalhando ali, na medida do trabalho que elas realizaram”, explicou Mariana Oliveira, gerente de Estratégia da Fundação Banco do Brasil, parceira na organização do Espaço Chico Mendes.

A Fundação BB, atualmente, é uma das principais incentivadoras de iniciativas que visem a economia solidária no Brasil, através de parcerias, como um acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para fortalecer iniciativas como cooperativas e associações. A Fundação BB investe em projetos de inclusão socioprodutiva, tecnologias sociais e capacitação, apoiando pequenas empresas e empreendedores para promover o desenvolvimento local e a sustentabilidade, como demonstram participações em festivais e editais.

De acordo com Mariana, a Fundação BB acredita que este é um processo mais justo de geração de renda. “Com a produção coletiva, o trabalho coletivo, estes projetos, cooperativas e associações estão gerando renda de forma justa, sem depender de quem está botando preço naquela mercadoria. Entregamos estes produtos para o mercado, mas em um outro momento, agregando valor nisso, conjuntamente com cada produtor”, reforçou.

Além disto, ainda segundo a representante, estes produtos são cultivados ou produzidos artesanalmente, de forma orgânica, livre de agrotóxicos, sem agredir o meio ambiente. “Estás comunidades preservam aquele espaço, tem consciência ambiental, pois é daquela terra, daquela água, que eles tiram o seu sustento, então, eles têm essa preocupação em manter em pé as florestas e vivo o meio ambiente”, finalizou.

Entre os expositores do Armazém da Sociobiodiversidade, está a Associação dos Produtores Rurais de Caruari (ASPROC), criada em 1994 pelo movimento de extrativistas que se uniram para lutar contra um sistema imposto de exploração econômica, social e ambiental na região do Médio Juruá, Amazonas. Localizada no município de Carauari, no Amazonas, a associação representa cerca 800 famílias de 55 comunidades ribeirinhas, representado os interesses das populações tradicionais no Médio Juruá pela melhoria da qualidade de vida com a garantia de direitos sociais.

“A nossa parceria com a Fundação Banco do Brasil tem sido fundamental, conseguimos nosso primeiro barco para escoamento da produção e a nossa balsa com capacidade de 90 toneladas para escoar. A Fundação BB tem buscado financiamento, ajudando a levar alimentos para a comunidade e escoar nossa produção, gerando renda. Temos o legado do Chico como um modelo de gestão do nosso negócio. Hoje, trabalhamos com os produtos como a borracha, a produção do pirarucu manejado, a produção do óleo vegetal, todos compondo a cadeia produtiva da sociobiodiversidade”, disse Francisco Flávio Ferreira do Carmo, do conselho fiscal da ASPROC.

Ao lado da ASPROC, é possível encontrar extrativistas da Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (Cooperxapuri), que completou sete anos de existência em 2025. Suas operações beneficiam diretamente cerca de 600 famílias envolvidas na produção de borracha, castanha, óleos, frutas e café.

“A Fundação BB é nossa parceira e nos trouxe para este espaço, nossos produtos da sociobiodiversidade, ao lado de pessoas de vários estados, dando visibilidade a nossa cooperativa. Sendo fundamental para o desenvolvimento da cooperativa. Hoje trabalhamos com produtos extrativistas, incluindo frutíferas, plantadas no município do Xapuri, no Acre”, concluiu Paulo Pinheiro, sócio da Cooperxapuri.

Memória e futuro: o legado de Chico Mendes

O Espaço Chico Mendes é uma realização do Comitê Chico Mendes com o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e da Fundação Banco do Brasil, com apoio do Memorial Chico Mendes, do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

Mais do que um espaço físico, ele representa um símbolo de continuidade da luta por justiça social, ambiental e climática — valores que marcaram a vida e o legado do seringueiro acreano assassinado em 1988 por defender a floresta e seu povo.

Para Angélica Mendes, neta de Chico Mendes e integrante do Comitê Chico Mendes, estar em Belém durante a COP30 é um momento de emoção e propósito.

“Fizemos esse legado de Chico Mendes para que muitas pessoas saibam o trabalho e a importância que ele teve. Ver as coisas acontecendo aqui é muito lindo e emocionante. Este espaço dá voz aos povos da floresta e cria um ambiente de aprendizado, de trocas e de fortalecimento. É um espaço completo, de exposições, de feira, de vivência e de esperança”, afirma Angélica Mendes, neta do ativista e integrante do Comitê Chico Mendes.

De acordo com Marlúcia Bonifácio, coordenadora de Pesquisa e Pós-Graduação do Museu Paraense Emílio Goeldi, o evento vem acompanhado de uma rica troca de experiências e diálogos, aproximando ciência e sociedade cada vez mais.

“Esse evento culmina em um conjunto de diálogos, que fizemos ao longo deste ano, trazendo esta troca de saberes entre populações tradicionais, entre a sociedade de um modo geral e a ciência, para que nós pudéssemos efetivar aquilo que nós nos propusemos, que é ter uma relação de parceria na construção de políticas públicas, das soluções para a crise climática. O Museu, nas suas diferentes áreas de atuação, está totalmente sincronizado com essa proposta”, concluiu Marlúcia.

Confira a Programação do Espaço Chico Mendes e Fundação BB AQUI

 

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