Correio Braziliense / Opinião: A urgência da gestão sustentável da água, por Asclepius Soares e Sérgio Besserman

A Cidade do Cabo enfrentará um colapso da água a partir de junho, sendo a primeira grande metrópole mundial a esgotar seus recursos hídricos. Após três anos de estiagem extrema, a cidade já estimou o Dia Zero, momento quando será cortado o abastecimento não essencial da água. Antes previsto para abril, as medidas de racionamento na agricultura e no consumo diário da população – de até 50 litros diários por pessoa – conseguiu adiar esta previsão para junho.

O Brasil, detentor de maior reserva de água doce do planeta, também tem sofrido com a escassez da água, seja pela distribuição desigual pelo território e ou pela irregularidade das chuvas, que causaram reduções drásticas nos reservatórios para abastecimento da água dos grandes centros urbanos, como em São Paulo (2014-2015) e Brasília (2017).

Notícias alarmantes como essas indicam uma emergente crise global da água e apontam para a necessidade de realizar um planejamento urgente, repensando toda a governança dos recursos hídricos. Há um consenso entre os especialistas que as mudanças climáticas, decorrentes da elevação da temperatura média do planeta, irá alterar a demanda de água para irrigação e consequentemente afetará a produção de alimentos, com impactos significativos nos preços e na distribuição para a sociedade.

O ativista Seth Siegel, autor do livro Faça-se a Água, alerta para uma previsão do governo dos Estados Unidos para 2025, quando 60% da massa terrestre mundial será afetada pela escassez da água. Além das mudanças climáticas, o crescimento da população, o aumento dos padrões de vida e a deficiência de infraestrutura agravarão o problema, levando instabilidade em diversas regiões. Muitos países já enfrentam dificuldades devido à escassez de água e o problema se agrava a cada ano. O autor destaca que se não houver políticas eficazes e tempestivas teremos num cenário futuro, o surgimento de refugiados da água: contingente de pessoas que migrarão sem planejamento para outras regiões, com graves problemas humanitários. 

É importante planejar o uso sustentável dos recursos hídricos, assim como a preservação de nascentes e recomposição de matas ciliares para possibilitar a recarga d’água dos mananciais, como rios e aquíferos. Tão urgente também é a adoção de iniciativas que permitam a segurança hídrica das populações para permanência em suas localidades de origem.

A tecnologia tem sido grande aliada na garantia dos recursos hídricos, tanto as convencionais – onde se destaca Israel, um país com escassos recursos hídricos e que garante o acesso à água por meio de tecnologias de captação e distribuição eficiente; ou as sociais, que aliam o saber popular e o conhecimento científico, além de mobilizar comunidades para criar soluções sustentáveis.

As tecnologias sociais de captação de água de chuva, conhecidas como cisternas de placas é um exemplo brasileiro de sucesso na interação da comunidade, sistematização de metodologias cotidianas e formulação de políticas públicas. Já são mais de um milhão de cisternas no semiárido brasileiro, permitindo que populações reservem água da chuva para convivência com a seca. 

Outra iniciativa de destaque é o dessalinizador solar, desenvolvida por meio de parceria de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba e cooperativas locais. Essa solução tem permitido a transformação de água salobra com alto índice de contaminação biológica e química (sais), em água potável em assentamentos do estado. Este aparato simples construído com vidro, lona de caminhão e pequena estrutura de alvenaria causa a condensação da água à temperatura de 70º C, com a eliminação de sais e elementos patogênicos com produção de água de qualidade para atendimento das necessidades de consumo básico.

Com o tema “Compartilhando Água”, o Fórum Mundial da Água fomentou debates e intercâmbio de soluções sobre a oferta e preservação dos recursos hídricos entre especialistas, pesquisadores, empresas e a sociedade civil. Realizado pela primeira vez no hemisfério sul, em Brasília, o evento reforçou o papel de potência estratégica do Brasil nas discussões sobre a água.

A agenda da Organização das Nações Unidas para o ano de 2030 estabelece como objetivo de desenvolvimento sustentável assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e o saneamento para todas as pessoas. Entre as metas estabelecidas estão o acesso ao saneamento e a higiene adequados, a redução em 50% da proporção de águas residuais não tratadas, aumento da eficiência do uso da água em todos os setores, proteção e restauração de ecossistemas relacionados como florestas, zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos.

São diretrizes que devem ser adotadas e implementadas com urgência, já que a disponibilidade de recursos hídricos é tema emergente em todos continentes e que dependem do envolvimento global da sociedade imediatamente. O não comprometimento desta geração com o enfrentamento das mudanças climáticas e com  a gestão da água pode trazer consequências muito graves para o futuro e a sustentabilidade da vida no planeta.

  IMG 9010

Sérgio Besserman Vianna - Presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro e  Asclepius Soares - Presidente da Fundação Banco do Brasil

Publicado em Notícias

Projeto que conta com a parceria da Fundação BB já colhe frutos dos cincos anos de atuação na região da Bacia do Pipiripau

O casal Vicente de Paulo e Jalile Cardoso são agricultores familiares que vivem do plantio de hortaliças, plantas para jardinagem e da venda de refeições na região rural do Distrito Federal. A família é uma das 177 participantes do projeto Produtor de Água no Pipiripau. Orgulhoso do trabalho que faz na conservação dos recursos hídricos, o agricultor conta que mudou o jeito de pensar e de trabalhar. Para abastecer a casa e os 30 hectares da família, que fica a 1,7 quilômetro do rio Pipiripau, a família faz uso de água das minas, por meio de gravidade e sem bombeamento e já plantou 2.700 mudas de árvores do Cerrado.

O projeto teve início em 2010, para promover a melhoria das condições ambientais e hidrológicas do Ribeirão Pipiripau, bacia de grande relevância para o Distrito Federal.  O conjunto de iniciativas promove a readequação ambiental da bacia, incluindo práticas de manejo do solo, da água, de produção agrícola e de recomposição de matas de galeria, além do pagamento pelos serviços ambientais prestados pelos produtores rurais por manterem suas propriedades ambientalmente adequadas ao projeto.

E é o que faz Daniel Almeida, um jovem produtor rural, de 30 anos, que há um ano assumiu a chácara 2 no Núcleo Rural Taquara, uma das propriedades atendidas pelo projeto. Nos 28 hectares que lhe pertencem, recebeu alguns benefícios que ajudaram a aumentar a capacidade de infiltração da água no solo e a recarga de água do lençol freático.

Já os irmãos Thiago e Diogo Kaiser são dois jovens promissores atendidos pelo projeto. Na chácara “Pé na Terra”, eles apostam no sistema de trabalho denominado CSA - Comunidades que Sustentam a Agricultura, que visa cuidar do meio ambiente e proporcionar alimentos mais saudáveis para as famílias e as futuras gerações. Com o cultivo sem uso de defensivos químicos, eles passaram a fazer parte de uma rede de agricultores familiares e coagricultores, que abastecem diversos pontos estratégicos do Distrito Federal com frutas, verduras e legumes orgânicos. “Somos orgulhosos de fazer parte desse projeto que implanta no agricultor a vontade de cuidar do meio ambiente e da biodiversidade”, disse Diogo.

Tecnologia social
O CSA é uma prática adotada por grupos de consumidores que se unem a um agricultor e se tornam corresponsáveis pela produção – desde bancar previamente o plantio, em cotas mensais, passando pela gestão financeira e administrativa do empreendimento até a distribuição da colheita entre os participantes. Sem precisar se preocupar com os recursos financeiros e a logística de distribuição, o agricultor pode focar somente na produção, o que o motiva a permanecer no campo. Os integrantes do grupo recebem de volta o investimento financeiro em cotas de alimentos retirados semanalmente. Em 2017, a prática de Botucatu (SP) foi finalista na categoria Economia Solidária do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social.

No Distrito Federal existe o CSA Brasília, composto por cerca de 20 grupos, um deles é CSA Pé na Terra, que tem a participação dos irmãos Thiago e Diogo e que é acompanhado pela Associação de Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera).

Na quarta-feira (21), a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Adasa), organizou uma visita técnica às propriedades atendidas pelo projeto Produtores de Água. A ação integrou a programação do 8º Fórum Mundial da Água e levou 40 pessoas para conhecer de perto o trabalho realizado pelos produtores e agricultores familiares na conservação do solo, restauração das Áreas de Preservação Permanente (APP) e vegetação nativa.

A comitiva composta por técnicos, especialista em água e meio ambiente, visitantes e jornalistas pôde conhecer também a Estação de Captação de Água do Pipiripau. Desde o ano 2000, a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) começou a operar na região, captando água para o abastecimento das cidades de Sobradinho e Planaltina (DF). O trabalho é feito por meio de decantação, sem uso de produtos químicos. Após esse processo, os 300 litros de água captados por segundo seguem para a estação de tratamento.

O Produtor de Água do Pipiripau é fruto de uma articulação multiinstitucional de dezesseis atores assinantes do Acordo de Cooperação, construído com base na determinação das instituições e do comprometimento dos produtores rurais, peças fundamentais para o desenvolvimento desse trabalho. Hoje, além da restauração ambiental, existem produtores conscientizados sobre a importância do uso adequado do meio ambiente, onde cada um assume a adoção de boas práticas de produção agrícola e compromissos dentro do planejamento do programa.

Entre as ações realizadas destacam-se: 177 contratos assinados; 360 mil mudas plantadas; 134 mil metros de estradas recuperadas; construção de 1.014 bacias de retenção; recuperação de 202 bacias de retenção; construção de 1.858 ondulações transversais; 310 hectares de terraceamentos e manutenção de cerca de mil hectares de terraceamentos.

Fazem parte do projeto as seguintes instituições: Adasa, ANA, Caesb, Emater/DF, Fundação Banco do Brasil, Embrapa, Banco do Brasil, Ibram, Secretaria de Agricultura, Secretaria do Meio Ambiente, Rede de Sementes do Cerrado, Sudeco, The Nature Conservancy, WWF, DEF/DF e UnB

Livro 
O Produtor de Águas gerou frutos que resultaram no livro “A Experiência do Projeto Produtor de Água do Pipiripau”, lançado no dia 19 , no 8º Fórum Mundial da Água. A obra traz a caracterização física da bacia, sua história, objetivos, planejamento e governança. Nele estão reunidas, também, as lições e os desafios enfrentados nos primeiros cinco anos do projeto, assim como as expectativas para os próximos cinco anos, dada a renovação do Acordo de Cooperação Técnica.

A divulgação deste projeto contempla quatro Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que fazem parte da Agenda da Organização das Nações Unidas com metas para o ano de 2030.

06 ods100x100 013ods 100x100 014ods 100x100 015ods 100x100

Publicado em Notícias