Quarta, 31 Outubro 2018 12:44

Um rio de desafios, riquezas e oportunidades

Escrito por Paula Crepaldi
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Organização comunitária no Médio Juruá, na Amazônia, fortalece produção sustentável de recursos e atrai apoio de organizações e empresas

O boto cor-de-rosa é atração entre os turistas que vão visitar os rios da Amazônia, mas não é companhia desejada pelos barqueiros da região. Têm a fama de distraírem a atenção do condutor e de fazê-lo perder o rumo. Além disso, os barqueiros rejeitam levar mulheres que estão no período menstrual, devido ao folclore de que elas atraem os mamíferos ao redor do barco.

Essa história faz parte do repertório das comunidades ribeirinhas no Médio Juruá, no município de Carauari, região sudoeste do Amazonas, onde o transporte fluvial tem papel decisivo: é o único meio de ligação entre as localidades e o resto do mundo. O rio Juruá tem inúmeras curvas, o que torna o percurso bastante demorado. Para chegar à área urbana leva até três dias de barco. Para a capital do estado, Manaus, a viagem dura até dez dias. Assim vivem 4,2 mil pessoas que moram nas 55 comunidades na reserva extrativista Médio Juruá e na reserva de desenvolvimento sustentável Uacari, unidas pelo sinuoso rio.  

“Aqui na Amazônia, além da falta de comunicação, nós temos grandes distâncias que elevam os custos e aumenta o preço dos produtos”, afirma Adevaldo Dias, presidente do Memorial Chico Mendes. 

Para superar a dificuldade com o transporte e o sustento das famílias, a saída foi a organização comunitária. Associações e cooperativas formadas por moradores contam com o apoio financeiro e acompanhamento de instituições parceiras mobilizadas na preservação da biodiversidade e da cultura dos ribeirinhos. As iniciativas na região conciliam a geração de renda com a conservação da floresta e buscam fortalecer cadeias produtivas com base no manejo sustentável de espécies vegetais e animais.

As famílias vivem da extração de acaí, da borracha e de oleaginosas como andiroba e murumuru, do cultivo da mandioca e da pesca - principalmente do manejo do pirarucu. O manejo das tartarugas, com o acompanhamento de pesquisadores, é feito para evitar que entrem para a lista das espécies em extinção, mas o uso comercial autorizado é um objetivo dos produtores locais.

Apoiadores nacionais, entre eles a Fundação Banco do Brasil, se reuniram com representantes de 45 comunidades em um seminário, entre 17 e 19 de outubro, na comunidade de Bauana. O evento teve a participação de mais de 200 pessoas, entre moradores e parceiros, e a organização foi do Instituto Chico Mendes (ICMBio) e da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc). O objetivo foi debater o fortalecimento das cadeias produtivas das duas reservas.

Bruna de Vita, coordenadora Geral de Populações Tradicionais do ICMBio, ficou satisfeita com a aproximação entre os comunitários e as instituições.


Ecoforte

A Fundação Banco do Brasil investe em diversos projetos no Médio Juruá, por meio do Programa Ecoforte, em parceria com o Fundo Amazônia (gerido pelo BNDES) e o apoio do Ministério do Meio Ambiente e ICMBio. 

Em convênio com a Asproc, o recurso em torno de R$ 1,2 milhão  foi utilizado para a compra de dois barcos para o transporte dos produtos e para a construção de um entreposto de pesca, que está em andamento. “Agora a gente pega o peixe e leva para Manaus para ser feito o processamento, com alto custo de transporte e de beneficiamento. Com esse entreposto construído aqui o manejador vai poder receber um valor a mais pelo pescado”, explica o presidente da Asproc, Manuel Siqueira. A entidade também recebeu o Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, em 2015, na categoria Comunidades Tradicionais, Agricultores Familiares e Assentados da Reforma Agrária. O troféu foi um reconhecimento à Tecnologia Social Sanear, que permite o acesso a água potável, por captação de chuva ou de poço, e a construção de sanitário nas residências.

Ainda pelo Ecoforte, a Cooperativa Codaemj recebeu cerca de R$ 600 mil que são empregados na aquisição de sementes de andiroba, murumuru e ucuuba e na construção de galpão para o processamento das oleaginosas.

"Participar do Seminário nos deu a dimensão da forte mobilização e organização social dos comunitários e da seriedade de suas associações e cooperativas para o desenvolvimento sustentável da região. Com o Ecoforte, contribuímos para a estruturação das cadeias produtivas manejadas por essas comunidades, agregando valor e ativando a economia extrativista,  possibilitando que mais pessoas se beneficiem, conheçam e consumam esses produtos em todo o Brasil", explica Cláudia Zulmira, assessora da Fundação Banco do Brasil. 

O que é manejo

Manejo Florestal Sustentável é a administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando os mecanismos de sustentação do ecossistema, possibilitando a utilização de múltiplas espécies, produtos e subprodutos madeireiros e não-madeireiros, assim como outros bens e serviços florestais. A produção leva em conta a legislação em vigor e tem o acompanhamento de órgãos ambientais. 

Fotos: Paula Crepaldi/Fundação BB e Bruno Bimbato/ICMbio

Ler 531 vezes Última modificação em Quarta, 14 Novembro 2018 18:29

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