Terça, 20 Novembro 2018 11:16

Raízes Africanas Destaque

Escrito por Kelly Quirino
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Projeto no DF fortalece a autoestima de crianças ao ensinar sobre o universo africano por meio de brincadeiras, músicas e jogos

No período da escravidão, durante a travessia do Atlântico, algumas mulheres negras davam à luz. Outras eram capturadas e transportadas com seus filhos. Estas crianças não tinham brinquedos para se divertirem durante o translado. Como forma de proporcionar este direito aos seus filhos, estas mulheres rasgavam pedaços de suas roupas, faziam pequenos nós e produziam bonecas para as crianças brincarem. Em cada nó havia um desejo de sorte, alegria e felicidade para os filhos que receberiam aquela boneca.

A história parece uma lenda, mas é real. O nome da boneca é Abayomi, palavra de origem iorubá, grupo étnico que existe até hoje na Nigéria. O termo Abay significa encontro e omi, precioso, ou seja, encontro precioso. Segundo a tradição, receber uma Abayomi traz alegria e felicidade. Esta história foi uma das muitas apresentadas para as crianças e jovens do projeto Raízes Afro Indígenas, da Associação Ludocriarte, localizada em São Sebastião, cidade no entorno do Distrito Federal.

O presidente da entidade, Paolo Chirola, identificou que as crianças reclamavam que sofriam preconceito por causa da origem e cor da pele. Como a maioria tem pais nordestinos e são negras, o objetivo do trabalho foi resgatar as raízes nordestinas africanas. “Esta discriminação também está relacionada à origem, por isso a escolha do viés cultural para trabalhar o lúdico. O nosso foco é o direito de brincar e por meio da brincadeira valorizar as raízes negras destas crianças”, afirma.

A educadora Darliane Santos disse que a história das abayomis foi contada na semana no dia das mães e o objetivo era cada criança fazer uma boneca para dedicar às mães. “Eu trabalhei isto com eles que fizeram chaveiros e cada nó tinha um desejo. Eles fizeram desejando coisas boas para as mães”, conta Darliane.

Brincadeiras e saber africano

Conteúdos sobre histórias orais, músicas e brincadeiras sobre as raízes africanas são ensinados no projeto, de forma criativa, o que estimula a retenção do conhecimento. Na aula de mitologia africana, eles aprenderam sobre os orixás e puderam fazer pinturas em tecidos de cada entidade. Xangô, Ossaim, Iemanjá, Iansã foram apresentadas e cada criança pode representá-los a partir de sua interpretação individual.

Na aula de música, o som do jazz afroa-mericano foi apresentado pir meio da cantora Nina Simone. Crianças entre 8 e 10 anos ouviam Feeling Good para estimular a criatividade enquanto pintavam na capa cd’s a o cabelo de Nina Simone. “Ela expressava seus sentimentos e cantava músicas que falava sobre a vida dela”, disse Yasmin Santos, 11 anos ao explicar quem foi Nina Simone.

Daniel Guedes, 15 anos, destaca que aprender sobre a África no projeto o fez valorizar a ascendência africana além de ensinar algo que ele não teve oportunidade de aprender na escola formal. “Eu uso turbante quando eu estou muito feliz. Aqui no projeto aprendi de um jeito divertido sobre a minha ancestralidade”, conta. Além do turbante, Daniel aprendeu jogos africanos que eram usados na agricultura e que hoje podem ser utilizados como jogos de tabuleiro, como dama e xadrez. Uma delas é a mancala, que possui papel importante em sociedades africanas e asiáticas e que tem como meta capturar sementes que estão em cavidades. Ganha a pessoa que consegue pegar o maior número de sementes. Assista ao vídeo do projeto e conheça a mancala.

20 de novembro

A abyomi, os orixás e a mancala são símbolos de resistência do povo africano que foi escravizado no Brasil. O 20 de novembro simboliza tudo isto. Nesta data, no ano de 1695, o líder do maior quilombo do país, Zumbi dos Palmares, foi assassinado por ter feito resistência à opressão imposta aos negros.

A data foi institucionalizada como Dia da Consciência Negra para demonstrar o protagonismo e a luta do povo negro africano, além de valorizar a contribuição para a formação social do Brasil por meio do trabalho, da cultura e dos saberes.

A Fundação Banco do Brasil, por meio do Projeto Memória, já homenageou outras pessoas negras que também foram protagonistas pela igualdade de direitos como João Cândido e Lélia Gonzalez.
 

 

Ler 4670 vezes Última modificação em Terça, 20 Novembro 2018 11:25

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