Monday, 26 March 2018 16:11

A urgência da gestão sustentável da água Featured

Written by Asclepius Soares e Sérgio Besserman
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Correio Braziliense / Opinião: A urgência da gestão sustentável da água, por Asclepius Soares e Sérgio Besserman

A Cidade do Cabo enfrentará um colapso da água a partir de junho, sendo a primeira grande metrópole mundial a esgotar seus recursos hídricos. Após três anos de estiagem extrema, a cidade já estimou o Dia Zero, momento quando será cortado o abastecimento não essencial da água. Antes previsto para abril, as medidas de racionamento na agricultura e no consumo diário da população – de até 50 litros diários por pessoa – conseguiu adiar esta previsão para junho.

O Brasil, detentor de maior reserva de água doce do planeta, também tem sofrido com a escassez da água, seja pela distribuição desigual pelo território e ou pela irregularidade das chuvas, que causaram reduções drásticas nos reservatórios para abastecimento da água dos grandes centros urbanos, como em São Paulo (2014-2015) e Brasília (2017).

Notícias alarmantes como essas indicam uma emergente crise global da água e apontam para a necessidade de realizar um planejamento urgente, repensando toda a governança dos recursos hídricos. Há um consenso entre os especialistas que as mudanças climáticas, decorrentes da elevação da temperatura média do planeta, irá alterar a demanda de água para irrigação e consequentemente afetará a produção de alimentos, com impactos significativos nos preços e na distribuição para a sociedade.

O ativista Seth Siegel, autor do livro Faça-se a Água, alerta para uma previsão do governo dos Estados Unidos para 2025, quando 60% da massa terrestre mundial será afetada pela escassez da água. Além das mudanças climáticas, o crescimento da população, o aumento dos padrões de vida e a deficiência de infraestrutura agravarão o problema, levando instabilidade em diversas regiões. Muitos países já enfrentam dificuldades devido à escassez de água e o problema se agrava a cada ano. O autor destaca que se não houver políticas eficazes e tempestivas teremos num cenário futuro, o surgimento de refugiados da água: contingente de pessoas que migrarão sem planejamento para outras regiões, com graves problemas humanitários. 

É importante planejar o uso sustentável dos recursos hídricos, assim como a preservação de nascentes e recomposição de matas ciliares para possibilitar a recarga d’água dos mananciais, como rios e aquíferos. Tão urgente também é a adoção de iniciativas que permitam a segurança hídrica das populações para permanência em suas localidades de origem.

A tecnologia tem sido grande aliada na garantia dos recursos hídricos, tanto as convencionais – onde se destaca Israel, um país com escassos recursos hídricos e que garante o acesso à água por meio de tecnologias de captação e distribuição eficiente; ou as sociais, que aliam o saber popular e o conhecimento científico, além de mobilizar comunidades para criar soluções sustentáveis.

As tecnologias sociais de captação de água de chuva, conhecidas como cisternas de placas é um exemplo brasileiro de sucesso na interação da comunidade, sistematização de metodologias cotidianas e formulação de políticas públicas. Já são mais de um milhão de cisternas no semiárido brasileiro, permitindo que populações reservem água da chuva para convivência com a seca. 

Outra iniciativa de destaque é o dessalinizador solar, desenvolvida por meio de parceria de pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba e cooperativas locais. Essa solução tem permitido a transformação de água salobra com alto índice de contaminação biológica e química (sais), em água potável em assentamentos do estado. Este aparato simples construído com vidro, lona de caminhão e pequena estrutura de alvenaria causa a condensação da água à temperatura de 70º C, com a eliminação de sais e elementos patogênicos com produção de água de qualidade para atendimento das necessidades de consumo básico.

Com o tema “Compartilhando Água”, o Fórum Mundial da Água fomentou debates e intercâmbio de soluções sobre a oferta e preservação dos recursos hídricos entre especialistas, pesquisadores, empresas e a sociedade civil. Realizado pela primeira vez no hemisfério sul, em Brasília, o evento reforçou o papel de potência estratégica do Brasil nas discussões sobre a água.

A agenda da Organização das Nações Unidas para o ano de 2030 estabelece como objetivo de desenvolvimento sustentável assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e o saneamento para todas as pessoas. Entre as metas estabelecidas estão o acesso ao saneamento e a higiene adequados, a redução em 50% da proporção de águas residuais não tratadas, aumento da eficiência do uso da água em todos os setores, proteção e restauração de ecossistemas relacionados como florestas, zonas úmidas, rios, aquíferos e lagos.

São diretrizes que devem ser adotadas e implementadas com urgência, já que a disponibilidade de recursos hídricos é tema emergente em todos continentes e que dependem do envolvimento global da sociedade imediatamente. O não comprometimento desta geração com o enfrentamento das mudanças climáticas e com  a gestão da água pode trazer consequências muito graves para o futuro e a sustentabilidade da vida no planeta.

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Sérgio Besserman Vianna - Presidente do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro e  Asclepius Soares - Presidente da Fundação Banco do Brasil

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